domingo, 30 de dezembro de 2012

O gato comunitário


O gato comunitário é aquele animal que é alimentado e pode até receber abrigo em alguma moradia em determinado bairro, mas não possui donos oficiais. 

A maioria desses gatinhos é manso, mas alguns podem se mostrar ariscos à outras pessoas que não forem seus cuidadores habituais. 

#22, gatinha residente de uma popular lanchonete aqui na cidade :)

E por que o projeto Felinos Urbanos se preocupa com esses gatos?

Geralmente gatos comunitários recebem alimentação, mas nenhum outro cuidado veterinário e também não são castrados, por falta de conscientização ou até mesmo condições monetárias das pessoas que cuidam deles. 

Com acesso regular a comida e um abrigo, acabam reproduzindo mais do que um gato feral que precisa se deslocar para procurar alimento e até mesmo caçar e os filhotes de ferais, que nascem em terrenos baldios, matagais e outros locais mais abertos e sem abrigo, possuem um número maior em mortalidade.

Nesses “passeios” e aproximação com outras pessoas fora de casa, o gato semi-domiciliado também se torna vitima de crueldade humana e pode adquirir doenças pelo contato com gatos de rua e ferimentos sérios, em brigas para reprodução. 

nº5, gatinha comunitária de uma rua em bairro carente, foi espancada grávida por crianças, seus filhotes morreram na barriga, estava começando um quadro de sepse. foi operada de emergêcia pelo projeto. depois de castrada,  adotada :)
o "Miau" melhorou muito seu comportamento depois de castrado, está sendo tratado para uma grave sarna pelo projeto, assim que estiver curado, será adotado :)

Se você ou alguém de sua vizinhança ajuda um gatinho semi-domiciliado e você quer fazer mais por ele, entre em contato conosco e apadrinhe o valor da castração :)  

Quem sabe, depois de castrado, ele não possa até mesmo ser adotado oficialmente e ter uma vida melhor fora das ruas? 


sábado, 29 de dezembro de 2012

Manejo de Ferais e Ariscos - Contenção para Anestesia

Gatos ferais e ariscos precisam de manejo diferenciado para contenção ao serem anestesiados. 

Estamos falando aqui de animais que podem, literalmente, morrer de stress. Quanto menor e mais rápida a intervenção, melhor. 

expressão corporal tipica de gato feral, orelhas para trás, pêlos arrepiados e rosnado  - gatos ferais não miam

Em outros países já existem clinicas especializadas e somente para grupos e gatos de C.E.D.

Há a utilização de caixas anestésicas  onde o animal é colocado, o gás anestésico é enviado através de um tubo e quando o gato está sedado, é retirado e encaminhado para os cuidados pré-cirúrgicos.

feral em caixa anestesica, já sedado :) 

Nestas clinicas há gaiolas de contenção  que imobilizam o animal, deixando-o na posição correta para que o veterinário se aproxime com segurança para aplicação da anestesia e assim que o gato dorme, é retirado para fazer a preparação pré-cirúrgica. 

um dos modelos de gaiola de contenção disponiveis no mercado ( foto retirada do blog  O TIME DO TIGOR )

Toda a equipe é treinada para lidar com esses animais e pesquisando sobre contenção dos mesmos, pode-se notar o silêncio e calma das operações, que resultam em menor stress para o animal e maior sucesso para contenção e anestesia. 

Os grupos e clinicas que não se utilizam de caixa anestésica ou de contenção, transferem o animal diretamente para sacos de pano, seguros, onde eles são contidos no escuro e facilmente anestesiados, como mostra o vídeo abaixo:



Tanto a gaiola de contenção quanto o saco de contenção remetem à teoria de técnica de compressão da Temple Grandin, onde animais mantidos em espaços menores e suavemente comprimidos liberam hormonios que os acalmam em situações de stress, tornando o manejo menos agressivo. 

Mesmo com essas ferramentas, o tempo é fundamental. Animais stressados demoram mais para sentir o efeito da anestesia e se recuperam mais lentamente da mesma. Ataques cardíacos também podem ocorrer. 

Infelizmente ainda não fomos capazes de comprar esse equipamento, mas está em nossas pretensões, talvez para 2013 :) 

Algumas vezes consegui fazer uma adaptação de gaiola de contenção  colocando os gatos em módulos na clinica veterinária e empurrando-os com placa de divisão pelo lado contrario, mas esse manejo demorava muito, resultando em agitação desnecessária para o animal. 


O nosso protocolo de contenção e anestesia é o cambão ( laço emborrachado ) no peito do gato. 



Coloca-se o gato em um modulo gradeado com pouco espaço, o laço é passado pela cabeça e patas dianteiras. Com o animal laçado, o colocamos contra a grade para que o veterinário aplique o anestésico  sem riscos. É necessário força no braço de apoio e atenção, pois caso o laço afrouxe, o gato não irá hesitar em atacar para fugir da aproximação humana. 

Por pior que sejam os rosnados e urros, uma vez enlaçado, o gato NÃO PODE ser liberado até que a anestesia seja aplicada, para evitar um segundo manejo e mais stress ao animal. 





NUNCA deve-se colocar cambão ou qualquer outro tipo de laço no pescoço de qualquer gato, sob o risco de enforcar, asfixiar e até mesmo quebrar o pescoço do animal. 



No caso de gatos ariscos ou assustados, tentamos evitar o uso do cambão. 
Utilizamos então luvas de proteção que nos foram doadas, para o manejo dos mesmos. 

luvas de proteção que vão até o cotovelo :)

Os gatinhos são retirados da caixa até a metade, expondo as patas traseiras e quadril. Utilizamos a pele extra no pescoço ( o mesmo ponto onde eles são carregados pelas mães ) e os imobilizamos, sem causar dor. Depois da aplicação, os colocamos de volta nas caixas, para que se sintam seguros e os retiramos quando adormecem. 

gatinho imobilizado :) 

Sim, os ferais são animais complicados, mas devemos sempre nos lembrar que as atividades de C.E.D devem priorizar a integridade física dos mesmos, nunca os colocando em riscos desnecessários. 

É necessário muita empatia pelo animal que será anestesiado e posteriormente castrado, que já se encontra em situação de stress. 

Aqui no Felinos Urbanos consideramos cada um dos gatinhos beneficiados como nosso enquanto estão sob nossos cuidados e exigimos de nós mesmos o mesmo grau de cuidados que ofereceríamos para nossos animais.

Um manejo humanizado e o mais gentil possível é o minimo que podemos oferecer :) 




terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Jeff Young e a Castração Precoce - Palestra - parte final


Gatos, C.E.D, Reprodução Indiscriminada e Educação de pessoas

(23:30) 



 
"Algumas razões para grupos de proteção não gostarem muito de mim:


o papel de protetores e ongs 

1-     Abrigar animais nunca irá resolver o problema da superpopulação. Se você tiver 100 canis, terá 120 animais dentro deles e isso não resolve nada. E isso faz alguma diferença para estes animais, como indivíduos? Na verdade, essa situação piora ainda mais as coisas.
2-    Você PRECISA 
garantir que nenhum animal adotado irá reproduzir
3-    Você PRECISA educar as pessoas. 
4-    Você PRECISA estabelecer uma campanha de Captura, Esterilização e Devolução de ferais.
 
Não há discussão sobre esse assunto. Gatos tem muitas ninhadas por ano, é quase algo perpetuo e, no final das contas, 80% destes filhotes que estão em abrigos nos E.U.A, que vão para adoção, são filhotes de gatos ferais ou errantes, não dos que tem dono, já que sabemos que a maioria dos gatos com donos já estão castrados. E também é preciso identificar quando um gato pertence a alguém. 

A pessoa chega ao consultório: “este gato tem um abcesso, não é o meu gato, eu só o alimento nos últimos 3 anos.” Quando ele se torna o seu gato? É nessas situações que, sem duvidas, como profissionais e como grupo, fazemos um trabalho bem ruim de educar as pessoas em relação aos gatos. Estamos bem com os cães , já o consideramos animais da família, 65 a 80% das pessoas consideram os cães animais da família, mas não consideramos os gatos da mesma forma.

Provavelmente a domesticação dos cães tem um grande papel nisso, pois foram os primeiros animais a serem domesticados pela humanidade, entre 80 a 100 mil anos atrás. Temos uma conexão mais antiga com eles. Gatos, só temos contato com eles entre 6 a 10 mil anos atrás. Ainda não estamos lá. Talvez nos próximos mil anos possamos considerá-los com outros olhos.

Há grandes instituições que possuíam enormes recursos financeiros para construir inúmeros canis, mas chegaram a conclusão que isso não fazia sentido. Ao invés de canis, investiram em centros cirúrgicos para castração, para realizarmos mais castrações e oferecer as cirurgias por um preço acessível, contratar um treinador de cães e um especialista em comportamento animal para educar os donos e evitar abandonos nos abrigos. “Por que você está abandonando este cão? Ele faz xixi na casa inteira.”

Ele faz isso por não estar castrado. Apenas ao castrá-lo você reduz a probabilidade deste problema em cães em 70% e em gatos em 90%. É aí que está o nosso papel, como veterinários, como futuros veterinários. Mesmo se você exterminar este problema em particular, você ainda terá pessoas trazendo os animais aos abrigos por motivos ridículos. A pergunta é: podemos devolver estes animais a seus lares de origem, corrigindo o problema? É aí que entra a modificação de comportamento, o treinamento e a educação de pessoas também. São coisas muito importantes.

Os benefícios x malefícios médicos da castração precoce:
1-    melhora comportamental,
2-    redução da incidência de cânceres
3-    maior estimativa de vida
4-    não irão reproduzir
5-    obesidade
6-    incontinência?


Mesmo quando falamos de incontinência, o argumento não é valido quando consideramos a diferença entre vida e morte. Apenas não faz sentido.

Alguns veterinarios dizem que, se castrarmos todos os animais, não teremos de onde ganhar dinheiro. E eu digo, se castrar tudo, irei vender drogas. É apenas uma questão de pespectiva ( risos ).

E voltamos ao ponto de buscar a real causa das coisas.

Vegetarianos vivem 7 anos a mais. E por que isso? Não somente por serem vegetarianos, mas eles possuem um certo estilo de vida mais saudável. Ajuda que sejam vegetarianos? Claro. Provavelmente não terão um ataque cardíaco, mas também possuem probabilidade de ter alguns tipos de câncer.

Dizem que alguns tipos de câncer são mais comuns em animais castrados 

( raças como Golden Retriever ), mas, novamente, como são as especificidades dessa população? E isso representa menos de 0.2% de casos nestes cães. Qual a importância disso quando você se depara com milhares, milhões de animais sendo mortos? Não é um fator valido.

Adoro cães de raça pura, não tenho problemas com criadores bons e legítimos reproduzindo cães bons e legítimos. 

Quando você recebe no consultório um Lulu da Pomerania, comprado em uma petshop, que custou bem barato e os donos estão pensando em reproduzi-lo, com 3 meses pesa quase 14 kilos. Mesmo sem conhecer muito bem sobre a raça, sei que eles não devem pesar quase 14 kilos, deve ter um chow-chow por aí, isso não é um Lulu da Pomerania. Mas a pessoa tinha um papel dizendo que é um Lulu e queriam reproduzi-lo. 
Qual sua postura como veterinário? A minha é: ele deve ser castrado, se você não o quiser, ali está a porta, pode sair.

Tenho um estabelecimento veterinário completo, podemos fazer de tudo, mas nada deixa nossas instalações sem ser castrado. Devemos ser a única instituição dos E.U.A que oferece serviços a baixos preços e, da ultima vez que chequei, tínhamos 15 mil clientes registrados.

Aqui estão alguns cuidados para castração precoce:





1- Hipoglicemia, hipotermia e hipotensão são as maiores preocupações em filhotes

2- Vermifugar e vaciná-los vários dias antes da cirurgia
3- Jejum de 2 horas antes da cirurgia, para gatinhos e de 4 horas para cãezinhos 
4- Administrar glicose oralmente 10-20 minutos antes da cirurgia ou após, se necessário 
5- Administrar soro cutâneo aquecido antes da cirurgia ou diretamente após o procedimento 
6- Manter todos os filhotes em superfícies aquecidas durante a cirurgia e recuperação
7- Fazer com que a preparação cirúrgica seja a mais rápida possível, usando materiais de sutura não-reativos. 



E, finalizo com: eles não morrem! Você realmente precisa fazer algo de muito errado para matar um filhote em uma cirurgia de castração. Em um mundo ideal eles estariam vermifugados, vacinados, etc, mas não estamos em um mundo ideal.
Quando estão muito doentes, espero uns 2 dias antes, sob cuidados, para operá-los. Se tiverem batimento cardíaco, vamos castrá-los. Pelo menos eu posso impedir que eles reproduzam.

As grandes vantagens da castração precoce:





1- Nível extremamente baixo de complicações 
2- Nível extremamente baixo de mortes
3- Recuperação extremamente rápida 
4- Tempo de cirurgia reduzido ( menos anestesia, menos materiais, menores custos )
5- Aumenta os benefícios gerais da castração 
6- A certeza de que estes animais nunca irão reproduzir

Alguém já viu filhotes acordando da anestesia? É fenomenal! Dentro de uma hora eles estão brincando, comendo, como se nada tivesse acontecido. Do outro lado você tem o animal de 9 anos de idade que passa dias dormindo, quando se levanta está todo dolorido e você gasta um monte de dinheiro em anti-inflamatórios e ainda tem uma chance maior de complicações.

Castração precoce é o melhor segredo da medicina veterinária e, sinceramente, não sei porque todos os veterinários não estão fazendo. É a coisa mais bem sucedida a se fazer. E, o mais importante, estes filhotes nunca irão reproduzir. 
O que é o nosso objetivo. 

Tudo que chega a nosso hospital, é castrado.
Não tenho problema em aceitar animais abandonados, mas se alguém chega com uma caixa de gatinhos, a primeira coisa que pergunto – onde está a mãe? 
Eu posso parar o ciclo de abandono naqueles gatinhos, mas preciso da mãe que continua nas ruas. Ah, a mãe é feral? Aqui está a armadilha, capture-a e traga-a para mim e eu cuidarei dos filhotes para você.

(32:57 ) Realmente não há razão para seus veterinários não estarem fazendo isso.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Jeff Young e a Castração Precoce - Palestra - parte II

A profissão de veterinário ( 12:36 )




"Em 1993, A Associação de médicos veterinários dos E.U.A, e este é um grupo bem conservador de pessoas, decidiram que a castração precoce não era algo ruim, que poderia ser uma ferramenta muito importante para evitar a super população, mas a grande maioria dos profissionais da área disseram que não queriam fazê-lo. Por que? Bom, simplesmente porque durante a graduação, você aprende que só pode castrá-los aos 6 meses, 9 meses, 10 meses, qualquer idade superior a isso. E a pergunta é: por que? Não há nenhuma prova cientifica por trás disso. Nenhuma mesmo. Essas ideias são baseadas apenas na tradição. Pergunte ao seu veterinário, por que você não faz castração precoce? 

Nos últimos 20 anos há vários estudos sobre o assunto, mas há uma grande diferença entre a correlação e causa. Um exemplo que eu adoro citar é: se a venda de sorvetes em N.Y cresce, também aumenta a taxa de assassinatos. E eu posso lhes mostrar o estudo cientifico dessa conclusão. 

A parte lógica do meu cérebro diz: então apenas parem de vender sorvetes e as taxas de assassinatos diminuíram, certo? Mas na verdade, aumentam-se as vendas de sorvete por causa do aumento da temperatura do ambiente, isso não é extraordinário, mas se você os jornais a conclusão será: a venda de sorvetes causa assassinatos. 

Como veterinários, nós somos muito ruins em relação à causa, como sociedade, como espécie, somos muito ruins para encontrar a causa das coisas. 

Uma das minhas historias favoritas: Eu castrei o cão de um senhor aos 3 meses de idade. 5 meses depois, recebi uma ligação em que o dono do cão me ameaçava por ter matado o animal dele. E eu perguntei o que aconteceu. O senhor disse – meu cão nunca havia pulado a cerca antes de ser castrado. Ele pulou a cerca, foi atropelado e morreu. E por alguma razão a culpa disso tudo foi minha, depois de 5 meses. Perguntei: será que existe alguma chance de seu cão ter crescido nestes últimos 5 meses? Ou havia um buraco na cerca? Então, como veterinários, vocês podem identificar que, vocês fazem algo e tudo o que ocorre após isso é por causa da sua intervenção. E não é isso que acontece. 

Quero ver estudos direcionados para a castração precoce pois a grande maioria das pesquisas são feitas para populações em geral, que não analisam as particularidades de COMO os animais que são castrados e desenvolvem algum problema de saúde são criados. Conhecemos pessoas que vivem com animais em quintais, amarrados, que não tem qualquer intervenção veterinária além da castração e não levamos esses aspectos em consideração. 

A boa noticia é que mais faculdades de veterinária estão ensinando castração precoce e eles não se atrelam a problemas específicos, pedindo mais dinheiro para pesquisas, para aprimoramento.  E isso vem acontecendo a uns 20 anos. 

Alguém gostaria de fazer alguma pergunta em relação a um problema atrelado à castração precoce que escutaram de seus veterinários? 

Incontinencia? Existem literaturas que indicam que, animais castrados precocemente são menos propensos à incontinência. Eu associo incontinência a excesso de peso, a hipotiroidismo, problemas alérgicos, e há bastante literatura sobre isso. 

Se você olhar para raças em especifico, algumas raças são  muito propensas à hipotireoidismo. Você não vê isso em raças pequenas com frequência ou em cães machos, acontece com maior regularidade em fêmeas de porte grande, que estão acima do peso. E fêmeas que são castradas tem 2x mais chances de estarem obesas do que as não-castradas e qual a razão disso? O meu argumento é que, elas moram conosco e já que temos a tendência de comer demais, também temos a tendência de alimentar nossos animais além do necessário. 

Também afirmo que eles não precisam ser obesos. Tenho somente cães castrados e nenhum deles está acima do peso. Você não precisa ser aquela porcentagem da população com cães obesos, você pode ser a outra parcela, que exercita seus cães, os mantém com peso ideal e que não tem incontinência urinária. Há muitos fatores envolvidos. 

Tambem devemos levar em consideração a técnica cirúrgica. Se você está usando Catgut  na base do útero, você não está fazendo o correto para o animal. Se eu tenho um estudo cientifico sobre isso? Não. Mas é a minha experiência, já remexi dentro de animais o suficiente, tirando grandes granulomas. Quando você corta e amarra o útero, ele retrai bem na bexiga e é onde os problemas de incontinência começam. O tipo de sutura é muito importante. 

Na Costa Rica eles tiveram grandes problemas com castração precoce pois estavam usando nylon da espessura do meu dedo. Você não acha que é um problema, algo assim, se esfregando em uma bexiga? Não faria isso com nenhum animal. Mas, é mais barato, mais rápido e por isso eles fazem, mas quando tem todos esses problemas, não sabem o motivo. Se você for fazer algo, faça direito. 

E, por isso, eu daria mais motivos para explicar incontinência. Femeas que já tiveram muitas ninhadas tem um aumento entre 4% a 8% de chances de apresentar incontinência, aumento de peso também, mas entre 8% a 16% terão incontinência se forem castradas. A pergunta é: será que podemos pegar esse percentual de 8 a 16% e diminuirmos isso através da mudança de técnicas cirúrgicas, nos certificando que elas não irão ganhar peso, lidando corretamente com o hipotireoidismo?

Algumas raças como Dobbermans, adivinhem só, terão incontinência. Boxers terão incontinência, pois tem uma grande chance de hipotireoidismo, sempre estão acima do peso ou possuem algum outro problema, então há muitas outras causas envolvidas. 

(19:48 ) Novamente, sendo aquele tipo de pessoa que vê o copo meio vazio, sempre me pergunto se estamos fazendo a diferença. Nos anos 70-80, estávamos matando 24 milhões de animais por ano nos E.U.A. Acho que era algo como 16 mil, por dia. E agora eles dizem que são 3 milhões. Não acredito nos 24 milhões, não acredito nos 3 milhões  acho que o real seria aproximadamente 30 milhões e neste exato momento estamos perto dos 6 milhões. Mas mesmo utilizando os números oficiais, ou mesmo os meus, é uma queda extremamente considerável neste período. É algo tremendo, algo que pode ser feito, este é o objetivo que precisamos ter em vista, pois está lá, é a possibilidade de atingir algo. 




Tudo isso tem a ver com educação, algo que fazemos muito pouco, como médicos veterinários. Somos MUITO ruins em relação à conscientização de pessoas. Alguém traz um cão mestiço “Ele é muito legal, quero reproduzi-lo, todo mundo gosta dele.” –  Como assim?

“A fêmea tem que ter uma ninhada antes de sossegar.” Nossa... então é melhor eu ter um filho com minha esposa pois ela não está muito sossegada. Ela já está nos 40, talvez seja um pouco tarde. 

Temos uma lista de grupos e faculdade que realizam castração precoce, há grandes nomes nesta lista, algumas das melhores universidades do mundo, então, como, no papel de um profissional, eu posso dizer “não acredito nisso, tem que ser ruim”, se todo  mundo está acreditando, por que você não acredita? E aí voltamos ao ponto da tradição. É algo que eles temem. 


lista de faculdades e grupos de proteção que são a favor da castração precoce 

Nós, como profissionais de veterinária, temos medo de mudanças. Realmente temos. Sempre temos medo de algo diferente. Tente mudar o protocolo anestésico de alguém, eles enlouqueceram pois eles morrem de medo de matar um animal, de algo dar errado. Lógico que existe uma boa razão para se preocupar e sentir medo de mudanças, mas isso não deve ser motivo para não fazer algo em relação à massiva superpopulação de animais, à massiva destruição do que consideramos animais de companhia. (22:03 ) 



Não faz muito sentido para mim, mas lembrando que não sou o cara mais inteligente do mundo, como você leva um animal com a perna quebrada até um bom hospital e escuta: bom, são 3 mil dólares para consertar a perna dele. As pessoas sentadas lá, uma família com 3 crianças, passando necessidade já que a economia não está boa no momento, dizem: eu não tenho 3mil dólares. E o veterinário diz: bem, podemos colocá-lo para dormir, matá-lo para você, por 100 dólares.


Onde está o valor do animal? O que você, como profissional, diz a essas pessoas? Se você tem 3mil dólares eu irei consertar o seu cão e vou fazer valer cada centavo, mas eu o mato por 100. Não consigo entender isso. E não há nada no meio disso? Como isso é possível? Não faz sentido para mim.

Posso fazer a mesma cirurgia de 3mil dolares por 300 dolares e ainda consigo ganhar dinheiro com isso. Como é possível eu conseguir fazer isso e eles não? Eles não querem “diminuir seus padrões”, mas o que isso significa? Você não está “diminuindo padrões”, você está salvando uma vida.

E se você olhar em uma dimensão maior, você tem uma família, 3 crianças que gostam do cão, vamos dizer que o cão pulou do carro, alguma coisa aconteceu, ninguém sabe o que houve, mas o que importa é que ninguém deseja que algo assim aconteça, aconteceu e eles não tem o dinheiro. Então o melhor que podemos fazer, como uma sociedade moderna, como  profissionais, é dizer: o matamos para você? 

Acho isso revoltante, mas essa é uma das razões de alguns veterinários não gostarem muito de mim."
 


sábado, 22 de dezembro de 2012

Dr.Jeff Young e a Castração Precoce - Palestra - parte I

Navegando pela internet, descobri essa palestra do Dr.Jeff Young, um grande nome da medicina veterinária e controle populacional e humanitário nos E.U.A, diretor da Planned Pethood Plus USA, utilizador da castração precoce desde sua graduação, em 1987.

Dr.Jeff em mutirão :)

Ele foi convidado para falar sobre as vantagens da castração precoce em uma palestra para acadêmicos veterinários em Queesland, Australia, em 2011.

Além dos aspectos médicos, o Dr.Jeff também aborda toda a importância da castração nos aspectos sociais e em prol da guarda responsável, não somente pela população em geral mas também o tomar de responsabilidade que veterinários e protetores necessitam ter quanto a superpopulação animal e eutanásia.

Não foi possível legendar o vídeo, então traduzi partes mais importantes da palestra, dividido em alguns posts.

Estes são os primeiros 12:36 minutos:

(01:02) "Me considero o tipo de pessoa que vê o copo meio vazio e, ao dizer isso, acredito firmemente que a nossa unica obrigação na vida é tentar. E minha pergunta é: estamos tentando com um proposito em mente? Estamos fazendo a diferença? E acho que essas são as coisas que você precisa se perguntar todo dia.
 
Trabalhei no controle de animais, fiz veterinária e participei do controle de animais. Isso mudou a minha visão do mundo e de como estamos tratando os nossos animais de estimação. Foi fenomenal para mim.

(03:15 ) Estou falando de castração, castração precoce. Qual a idade ideal?
 
Se você faz parte da Humane Society NADA deveria deixar os abrigos sem ser esterilizado antes. Ponto final, sem discussão. Acredito que, hoje em dia , se você não castra um animal que irá para adoção, você está fazendo algo de errado. E, mesmo assim, em todo o país são feitos contratos de castração e eles não funcionam, simplesmente não funcionam. 


 

Como veterinário que atua em consultório, eu posso atender o seu animal, dar vermífugos, vacinas, etc. e então castrá-lo às 16 ou 20 semanas, quando eles ainda não irão reproduzir. Mas o meu lado que está envolvido com a Humane Society irá castrar qualquer coisa. Já castrei animais com 24hrs de nascidos. Se o coração está batendo, irei castrá-los. Não tenho nenhum problema com isso. Minha única ressalva: precisam ter um batimento cardíaco. Senão, não será muito proveitoso depois             ( risos ). 

(04:40) Atualmente, quase 10% dos veterinários nos EUA realiza castração precoce, o que é algo crescente, mas não acredito que atingirá mais do que 20%. Mas, o relevante é, os profissionais que estão realizando essas castrações o estão fazendo em grande escala e são muito bons no que estão fazendo e, eu pessoalmente considero, um dos melhores segredos guardados da medicina veterinária: na castração precoce o tempo de duração da anestesia é menor, há tantos outros pontos positivos e, sabem, eles não morrem. É simplesmente maravilhoso. Filhotes não morrem ao serem anestesiados para castração. São chamadas de castração sem sangue. Você pode pegar qualquer filhote, tirar tudo, cortar, e eles não irão morrer. É fenomenal. E, está escrito nas literaturas, é como as pessoas costumavam fazer. 


(05:30) Lembro de estar na Humane Society uma vez e eles tinham vários gatinhos, muito doentes. E tentei convencê-los a eutanásia-los, eles não quiseram fazer. E pensei – ok, vou castrá-los, então. Eles tinham febre, os olhos grudados ( de infecção ) , estavam muito, muito doentes. Eles não permitiriam que eles saíssem do abrigo sem estarem castrados e não queriam que eu os colocasse para dormir, então castrei todos eles e coloquei mais anestésico do que deveria, pensando – talvez eles irão dormir e morrer.

Chego no dia seguinte e estão todos correndo em suas gaiolas, comendo – é, realmente não consegui matá-los. E isso é incrível!

(6:02) Há registros sobre castração precoce de cães em 200, 300 A.C , então isso vem acontecendo a muito tempo. Oregon é o berço da castração precoce nos E.U.A. 




 
Nós, veterinários de pequenos animais, temos a tendência de achar que somos médicos ao invés de sermos veterinários e veterinários de grandes animais tem a tendência de serem mais veterinários ao invés de médicos, então há maior senso comum, há o fato da saúde do rebanho e o cavalheiro que estava fazendo castração precoce nos anos 70 veio destes locais de animais de grande porte  e o que ele descobriu, foi:  as pessoas adotavam animais de abrigo que tinham ninhadas e depois ele estava recebendo as ninhadas dos animais doados no ano passado, neste mesmo abrigo. E nos anos seguintes ele tinha mais ninhadas destes mesmos animais. E ele pensou – isso é loucura, por que não esterilizamos todos eles? Fazemos isso em porcos, em ovelhas, em animais bem mais jovens , então por que não fazer com todos os animais? E os diretores do abrigo disseram: boa ideia.
Não era controverso, já que ninguém sabia nada a respeito de castração precoce. 

E ele simplesmente fez.
 
Com isso os números de eutanásia foram reduzidos drasticamente.

(07:26) Leiberman é considerado o pai da castração precoce, tendo publicado um artigo em 1987. Na época foi muito controverso, ele recebeu cartas inacreditáveis, dizendo que aquilo era horrível, mas, na mesma idade, levamos nossos bebês para serem circuncidados. E sem anestesia, devo acrescentar.
 
O ponto é: ele tinha um excelente argumento. Ele assistiu um numero tremendo de animais sendo eutanasiados por nenhuma outra razão além de terem nascido e como você para isso? Você os castra antes da maturidade sexual. 

Me graduei em 1987 e o conheci no verão de 1987 e desde então venho castrando qualquer coisa que tenha um batimento cardíaco.

O primeiro estudo sobre castração precoce, 7 semanas x 7 meses foi feito em 1991 na Universidade da Florida e naquela época, nada de negativo foi apontado. O maior mito que você escuta é que, se forem castrados os animais irão parar de crescer, mas na verdade, o oposto acontece. Na ausência de hormônios sexuais os animais crescem mais, mas não é algo tão significativo.

Quantos de vocês assinaram um contrato de adoção? Você assina um termo se comprometendo a trazer o animal de volta para ser castrado depois de uma época. Garanto a vocês que nunca chegam aos 100%. Não é possível. No Colorado, o governo decidiu se envolver com o controle populacional e disseram “você leva o seu animal adotado do abrigo para qualquer veterinário da região e ele será castrado gratuitamente, nós pagaremos o veterinário.” 30% das pessoas apareceram no primeiro ano. Isso representa 70% da população animal. 









Nos EUA temos 8 milhões de cães e 96 milhões de gatos. Não interessa se você castra 70% dos animais, pois você ainda acaba com uma superpopulação. A razão é simples: sexo para eles é como universitários em uma sexta a noite com muita cerveja. Eles não se importam. E os animais são motivados por hormônios e eles irão arrumar um jeito ( para reproduzir ).

Se a regra dos 70% fosse verdadeira, não teríamos um problema de superpopulação de animais, já que por volta de 87% dos gatos já estão castrados e 76% dos cães. Então, se já temos 70% dos animais castrados por que ainda temos um problema de superpopulação?

Você pode dizer que isso é causado pelas pessoas que não adotam dos locais adequados, mas isso realmente importa para o animal que será eutanasiado?

Eutanásia ainda é a causa numero 1 de morte de animais de estimação nos E.U.A. Pelo simples ato da castração você DOBRA a estimativa de vida de um cão de rua e pode acabar sendo uma vida bem decente. 





Considero a castração precoce uma ferramenta, nada além disso. É uma daquelas coisas fáceis de fazer, é melhor para os animais, toda institu
ição de bem estar para os animais deveria fazer e, francamente, como membro da Humane Society, não sei como podemos falar sobre ética e dizer “você tem que castrar seu animal, é para o bem dele, para o bem da sociedade e você precisa fazê-lo, mas estamos doando animais por contrato e não conseguimos castrar todos depois.” 
Não há lógica nisso.

Cães forma laços entre 8 a 12 semanas, gatos entre 6 a 9 semanas e esse é um período muito critico se você entende sobre comportamento, então, o importante é, castrá-los neste período e depois doá-los."


Para quem entende inglês e deseja assistir na integra:


quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Aspectos sociais de uma colônia


Antes de iniciar atividades de C.E.D em uma área urbana, é necessário analisar a estrutura social da colônia a ser trabalhada e dos focos que constituem a mesma.

A colônia é a área principal onde os gatos residem. Pode ser um bairro, um terreno, matagal ou um prédio em ruínas  Os focos são pequenos grupos, que podem ser formados por machos jovens ( geralmente irmãos ), fêmeas e seus filhotes e machos adultos que intercalam diferentes focos dentro de uma colonia para reproduzir.

um de nossos focos familiares, mamãe à direita e seus 3 filhotes 

Cada foco possui suas particularidades. Horários em que os animais estão mais ativos e onde e como conseguem alimentos são informações primordiais para a organização das capturas, uma vez que os gatos serão atraídos para os locais onde se sentem mais seguros, dentro de horas já estabelecidas por eles.

Um exemplo claro é a nossa Colônia do Reviver, onde os gatos são alimentados as 16:30, todos os dias, com restos de comida de um restaurante proximo e foi neste horário que realizamos a grande maioria de nossas capturas de forma bem sucedida, apostando na necessidade e rotina de alimento destes felinos ariscos. 



Colônias de ferais possuem características ainda mais distintas, uma vez que não são vistos quando há movimentação de pessoas ao redor, aparecendo às madrugadas ou começo da manhã. A observação dos hábitos dessas colonias e focos devem ser feitas com maior atenção e cautela, já que visitas podem afastar os animais. Uma medida para impedir a mudança ou stress dos mesmos é sempre deixar alimento disponível   após cada visita, criando uma nova rotina de associação positiva e favoreça a captura.                                Nestes casos utiliza-se nestes casos, da gatoeira de metal, que dispara sozinha, se não houver local para esconderijo da pessoa responsável pela drop trap. 



Geralmente no caso de captura de ferais com a drop trap, permanecemos dentro do carro, em silêncio, aguardando a aproximação dos gatos com isca de sardinha, acionando a armadilha quando os mesmos são atraídos e se posicionam apropriadamente para a captura. Com gatos ariscos é possivel uma distanciamento, sem camuflagem. 

macho reprodutor da Colônia das Ruinas, capturado com gatoeira de metal 

Gatos machos são os mais difíceis  por sua própria natureza errante para ampliar territórios e o número de fêmeas submissas e filhotes dentro das colonias. Ao contrário dos leões, que se estabelecem em um único bando composto de fêmeas e seus filhotes, é raro que um macho permaneça em um foco, já que, ao sentir uma gata no cio, ele pode percorrer vários quilômetros de distancia apenas para acasalar. A melhor estrategia para captura de um macho é manter alimento e água disponível nos focos e monitorar os horários em que eles aparecem. Para este individuo, que necessita constantemente de alimento e um local seguro para descansar, estes pontos de alimentação são essenciais. 


exemplo de organização social de uma colônia

 Apesar de não permanecerem em somente um local dentro das colônias, machos estranhos não se toleram, havendo demostrações de dominância pelo arqueamento do corpo, miados e rosnados. As brigas ocorrem em ultimo caso quando somente a demostração de tamanho e força não são necessários para afastar os intrusos, já que ferimentos representam impossibilidade de locomoção, alimentação e reprodução, deixando o macho vulnerável a ataques e perda de fêmeas. 

demonstrações de hostilidade entre machos não-castrados

Este mesmo macho, ao ser capturado, terá um papel essencial, juntamente com todo o seu foco, de afastar gatos não-castrados e defender os residentes, impedindo que intrusos permaneçam na colonia, mantendo o número dos felinos do local estável. 

um foco familiar com macho residente #37


A importância da castração de TODOS os membros de uma colonia ou foco está justamente na fixação dos mesmos em um local especifico, já que um unico macho não-castrado pode se distanciar da colonia, arriscando-se em outro território atrás de fêmeas não-castradas e uma femea não-esterilizado irá fazer o mesmo, aumentando a população de gatos em outros locais que podem não ser monitorados e beneficiados por ações de C.E.D.

integrante do "Foco do Restaurante", onde 9 ferais, machos e femeas de diferentes idades, foram capturados e esterilizados

Gatos de um mesmo foco, mesmo que não sejam aparentados, mantém entre eles um elo de respeito e tolerância. É aí que ressaltamos a importância da devolução dos gatos a seu exato local de origem, sempre que possível. Além da preocupação com fonte de alimento, água e abrigo neste novo local, deve-se pensar na integridade física do gato introduzido, já que o mesmo será expulso e agredido pelos residentes. 

o nosso "foco dos filhotes" , formado por gatos não aparentados, mas de idades próximas

Estas brigas podem causar ferimentos sérios e até mesmo morte por atropelamentos, já que um gato sendo enxotado por outros, dificilmente será cauteloso antes de jogar-se nas ruas, em fuga. 

A perda de um ou mais membros pode desestruturar completamente um foco e até mesmo extingui-lo. 
Animais sem grupo irão vagar entre os focos, mesmo castrados, em busca de comida e água e ficam mais vulneráveis à agressão dos gatos de focos vizinhos e intrusos não-castrados.

parte de um dos focos do Reviver 

Focos são um bom indicativo do equilíbrio social de uma colônia, além de facilitar o trabalho de cuidadores destes animais, quando se mantém em um local estabelecido, com rotinas, tornando mais simples a monitoração dos indivíduos e intervenção no caso de doenças ou outros problemas que prejudiquem os gatos. 

Uma grande parte do trabalho de C.E.D é manter os animais em seus locais de origem, da forma mais segura possível, garantindo assim a integridade dos mesmos.